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O vice-presidente da Bolívia, Álvaro Garcia
Linera, proferiu há dias uma frase emblemática: “Um governo é metade realizações e metade ideias”.
Ou seja, mesmo com obra feita, um governo
(seja local ou nacional) aparecerá aos olhos da sociedade como tendo feito
muito pouco ou mesmo nada se não souber travar a luta de ideias.
Vejamos só um pequeno exemplo: segundo o
Banco Mundial, a pobreza extrema no Brasil caiu 64% entre 2001 e 2013 (governos
de Lula e Dilma), passando de uma taxa de 13,6% para 4,9% da população. No
mesmo período, mais de 20 milhões de brasileiros ascenderam socialmente neste
país.
No entanto, no mesmo período, só três em dez
destes trabalhadores filiaram-se em qualquer sindicato, enquanto milhões de
estudantes e cidadãos beneficiários dos diversos programas federais saíram à
rua recentemente contra Lula e Dilma Rousseff.
Ou
seja, a grandiosa obra dos governos do PT, ao não ser acompanhada da necessária
e devida luta ideológica, caiu nas mãos dos inimigos da democracia que,
servindo-se da conjuntura económica desfavorável e da apregoada luta contra a
corrupção, procuram agora sentar no banco dos réus quem tirou da pobreza
extrema um número de pessoas equivalente a duas vezes a população portuguesa.
Sendo a
ideologia o processo pelo qual as ideias da classe dominante se tornam ideias
de todas as classes, o que está a acontecer no Brasil é que quem trava a luta
de ideias não foi quem fez a obra. Ou seja, são os inimigos da obra realizada
quem está a tirar partido da luta de ideias para reverter a seu favor a obra
que nada fizeram para erguer.
Na
verdade, na gestão dos governos (sejam eles centrais ou locais) há, neste
âmbito, dois erros que se devem evitar:
O
primeiro erro é cumprir as promessas eleitorais esquecendo-se de travar a luta
de ideias para orientar e mobilizar ideologicamente os beneficiários da obra
feita;
O
segundo erro é não fazer obra nem realizações substanciais, mas querer
convencer a sociedade que a fez.
A luta
ideológica, além de assentar na verdade e não na ilusão, deve contribuir para
uma alteração da correlação de forças, devendo ser travada com ideias simples
(poucas) e convincentes.
O
debate de deias deve ter como fio condutor um objectivo estratégico capaz de
mobilizar a sociedade para um projeto de desenvolvimento sustentável, do ponto
de vista social, ambiental, cultural, económico e financeiro.
O
debate de ideias só pode ser metade da metade se for verdadeiro e não separar o
todo das partes, se for simultaneamente social, cultural, ambiental, económico
e financeiro.
Só é
possível fazer implodir os golpistas, seja onde for, só é possível vencer a
demagogia e o populismo se o pensamento e a acção trabalharem de mãos dadas.
Só a
esta forma de pensar e agir podemos chamar de política, no verdadeiro sentido e
nobre da palavra.
Alcídio
Torres
Deputado
Municipal