sexta-feira, 22 de abril de 2016

50-50


50-50

 

 

O vice-presidente da Bolívia, Álvaro Garcia Linera, proferiu há dias uma frase emblemática: “Um governo é metade realizações e metade ideias”.

Ou seja, mesmo com obra feita, um governo (seja local ou nacional) aparecerá aos olhos da sociedade como tendo feito muito pouco ou mesmo nada se não souber travar a luta de ideias.

Vejamos só um pequeno exemplo: segundo o Banco Mundial, a pobreza extrema no Brasil caiu 64% entre 2001 e 2013 (governos de Lula e Dilma), passando de uma taxa de 13,6% para 4,9% da população. No mesmo período, mais de 20 milhões de brasileiros ascenderam socialmente neste país.

No entanto, no mesmo período, só três em dez destes trabalhadores filiaram-se em qualquer sindicato, enquanto milhões de estudantes e cidadãos beneficiários dos diversos programas federais saíram à rua recentemente contra Lula e Dilma Rousseff.

Ou seja, a grandiosa obra dos governos do PT, ao não ser acompanhada da necessária e devida luta ideológica, caiu nas mãos dos inimigos da democracia que, servindo-se da conjuntura económica desfavorável e da apregoada luta contra a corrupção, procuram agora sentar no banco dos réus quem tirou da pobreza extrema um número de pessoas equivalente a duas vezes a população portuguesa.

Sendo a ideologia o processo pelo qual as ideias da classe dominante se tornam ideias de todas as classes, o que está a acontecer no Brasil é que quem trava a luta de ideias não foi quem fez a obra. Ou seja, são os inimigos da obra realizada quem está a tirar partido da luta de ideias para reverter a seu favor a obra que nada fizeram para erguer.

Na verdade, na gestão dos governos (sejam eles centrais ou locais) há, neste âmbito, dois erros que se devem evitar:

O primeiro erro é cumprir as promessas eleitorais esquecendo-se de travar a luta de ideias para orientar e mobilizar ideologicamente os beneficiários da obra feita;

O segundo erro é não fazer obra nem realizações substanciais, mas querer convencer a sociedade que a fez.

A luta ideológica, além de assentar na verdade e não na ilusão, deve contribuir para uma alteração da correlação de forças, devendo ser travada com ideias simples (poucas) e convincentes.

O debate de deias deve ter como fio condutor um objectivo estratégico capaz de mobilizar a sociedade para um projeto de desenvolvimento sustentável, do ponto de vista social, ambiental, cultural, económico e financeiro.

O debate de ideias só pode ser metade da metade se for verdadeiro e não separar o todo das partes, se for simultaneamente social, cultural, ambiental, económico e financeiro.

Só é possível fazer implodir os golpistas, seja onde for, só é possível vencer a demagogia e o populismo se o pensamento e a acção trabalharem de mãos dadas.

Só a esta forma de pensar e agir podemos chamar de política, no verdadeiro sentido e nobre da palavra.

 

Alcídio Torres

Deputado Municipal

sexta-feira, 1 de abril de 2016

como ser oposição


Por vezes, as oposições ao poder têm uma ideia distorcida do que é ser oposição. O papel da oposição não é só criticar ou apontar os erros e pontos fracos do poder mas, também elogiar e valorizar o que é positivo (o outro lado da moeda ou da realidade).

Se, por exemplo, numa autarquia o poder executou 100% da receita e 93% da despesa, se tem os pagamentos em dia, se tem um défice ou uma dívida residual a oposição não deve omitir ou ignorar estes aspectos positivos.

Se eu fosse oposição diria o seguinte neste e noutros casos: Como partido da oposição valorizo a execução orçamental, valorizo a inexistência de défices e de dívidas mas, se fosse poder, a minha prioridade passava por potenciar muito mais o investimento, sacrificando um pouco a dívida, para beneficiar a criação de emprego e favorecer uma estratégia de maior empreendedorismo local.

Como eleitor desconfio tanto de quem diz que faz tudo bem, que não erra e raramente se engana, como desconfio de quem não reconhece ao poder executivo uma única coisa bem feita.

Ser oposição não é, simplesmente, votar contra o orçamento, mas confrontar o poder ou com um orçamento alternativo ou com propostas de alteração alternativas. Se o poder se mantiver cego, surdo e mudo perante os contributos da oposição, então a oposição tem autoridade política para votar contra e justificar o seu voto perante os cidadãos.

Ser oposição é estar vigilante e atenta ao que é prometido sem ser cumprido; é concentrar-se no que é essencial e não no acessório, é mostrar que faz tanto ou mais pelo interesse público que o próprio poder.

Para controlar o futuro, a oposição tem de se libertar dos hábitos e dos preconceitos do passado, deve procurar usar mais a razão para entender a realidade e transformá-la à sua medida.

A oposição não deve comportar-se como alguém que anda por aí, mas como uma entidade que não se deve ver como demasiado pequena para solucionar os grandes problemas da vida, nem como demasiado grande para solucionar os pequenos problemas da vida.

A oposição deve conhecer perfeitamente as potencialidades e fragilidades do poder, como deve conhecer tão bem as suas próprias capacidades e forças. Não é por acaso que Sun Tzu escrevia o seguinte no livro “ A Arte da Guerra”: Se conheces os demais e te conheces a ti mesmo, nem em cem batalhas correrás perigo; se não conheces os demais, porém te conheces a ti mesmo, perderás uma batalha e ganharás outra; se não conheces os demais nem te conheces a ti mesmo, correrás perigo em cada batalha.

A arte da política implica, por isso, uma capacidade de estratégia e de liderança inquestionáveis, só assim é possível vencer uma batalha ou uma guerra mesmo que o seu exército seja mais pequeno que o exército “inimigo”.

 

Alcídio Torres

Deputado municipal

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O meu contacto com Almeida Santos

Conheci António Almeida Santos quando ele prefaciou o livro "O Regresso dos partidos" do qual fui co-autor com Maria Amelia Antunes. O livro foi apresentado em Lisboa, na Fundação Mário Soares em 30 de Outubro de 2007. Almeida Santos sentou-se na mesa ao lado de Mário Soares para ouvir o discurso de apresentação da obra a cargo de António José Seguro.
De António Almeida Santos recordo o seu porte de homem elegante, quer física, quer intelectualmente mas recordo, essencialmente o que ele escreveu no prefácio do "Regresso dos Partidos".
Como visionário e um político aberto à mudança e inovação, Almeida Santos concordava, na essência com os autores do livro e escrevia: "Se a democracia representativa tem de ceder o palco à democracia directa, pois que ceda. Sempre fui contra resistências inúteis, e esta, a prazo, sê-lo-á muito provavelmente. Mas não sem que eu deponha um ramo de flores na campa da democracia representativa".
Almeida Santos deixou-nos hoje com "o homem velho ainda dentro da pele do homem novo", num impasse civilizacional onde impera as desigualdades e uma democracia sem rumo.
O homem que agora nos deixou e pediu para ser cremado era um homem realista, que procurava prever o futuro com os pés assentes no presente. O prefácio por ele escrito em "O Regresso dos Partidos" merece uma segunda leitura por se tratar de um escrito completamente tolerante e aberto ao conhecimento e à mudança.
Numa época em que alguns políticos sabem tudo e raramente se enganam, o testemunho de vida de Almeida Santos é de alguém que reconhece a limitação do saber e do conhecimento, de alguém aberto aos outros, às suas ideias e convicções.
O pouco que conheci deste homem é o suficiente para não o deixar partir sem lhe dizer que admiro a sua humildade, a sua lealdade, o seu sentido de solidariedade, o seu apego aos valores da democracia, a sua abertura ao conhecimento e à inovação.
OBRIGADO POR TUDO!

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Não exigir apuramento de responsabilidades também é crime




O Tribunal de Contas (TdC) fez um levantamento dos apoios concedidos ao setor financeiro e concluiu que entre 2008 e 2014 foram concedidos apoios públicos ao setor financeiro cujos fluxos líquidos atingiram no final do período 11.822 milhões (onze mil oitocentos e vinte e dois milhões de euros). No total, os fluxos líquidos para o setor financeiro atingiram quase 12 mil milhões, o que representa 6,8% do PIB de 2014.

As medidas de austeridade aplicadas aos portugueses desde 2011 atingiram, aproximadamente, os 30 mil milhões de euros. Uma verba astronómica correspondente a 17% do PIB e que daria, por exemplo, para pagar dois anos de salários dos funcionários públicos ou para criar praticamente trinta equipas de futebol só de Cristianos Ronaldos.

Ou seja, os portugueses foram chamados a pagar, entre outras facturas, a grandiosa factura dos banqueiros e gestores que viviam acima das suas possibilidades.

No entanto, nos últimos anos, a privatização de grande parte do sector público, a política de austeridade e o ataque às condições de vida dos funcionários públicos foi feita em nome da superioridade da gestão privada em relação à gestão pública.

Os escândalos em torno do BCP, do BPN, do Banco Espirito Santo e recentemente do BANIF mostram à saciedade que a superioridade da gestão privada face à gestão pública apenas serviu para justificar a imposição de uma política de austeridade nunca vista no país.

Todavia, esta manipulação da opinião pública, todo este rombo no erário público não fez, até hoje, soar as campainhas de alarme da responsabilização política e criminal dos principais agentes políticos e económicos do país.

No parlamento continuam sentados calma e serenamente Passos Coelho, Paulo Portas ou Maria Luis Albuquerque e nas suas casas ou à frente de novos negócios continuam impávidos e serenos administradores e gestores de topo responsáveis pelo empobrecimento do país.

Perante toda esta irresponsabilidade e desfaçatez não seria justo uma sociedade de advogados disponibilizar-se, gratuitamente, para encabeçar um movimento cívico exigindo o apuramento de responsabilidades criminais por parte dos principais agentes políticos e financeiros do país dos últimos sete anos?

Na Islândia e noutros países europeus as responsabilidades foram apuradas, com políticos e banqueiros julgados e condenados. Por que não em Portugal?

Ao fim e ao cabo, não exigir apuramento de responsabilidades também é crime

 
 

domingo, 27 de dezembro de 2015

Eu, criminoso climático me confesso




Sou daqueles que não embarca na impostura científica e na manipulação climática que quer impor ao mundo a tese do aquecimento global ou das alterações climáticas (versão soft) e mais grave ainda, do aquecimento global por via dos gases com efeito estufa.
Ou seja, não acredito no aquecimento global e muito menos na responsabilidade do homem (antropogénica) nesse aquecimento global.
E não precisamos ir muito longe para discordar da tese do aquecimento global, ou das alterações climáticas, precisamos apenas de revelar a verdade contra a mentira, ou a ciência contra a impostura científica.
Numa conferência climática realizada em 2012 (mas cujas conclusões só recentemente foram divulgadas) um cientista alemão (geólogo e perito em computação) revelou um estudo por si orientado e que se traduziu no registo climático de 1153 estações meteorológicas de todo o mundo, que remontam a 1881.
Em linha com os dados da NASA de 2010 este estudo revela que o planeta Terra vem arrefecendo desde a década de 50 do século XX. Desde 1881 há três períodos de aquecimento da terra e quatro de arrefecimento. Um dos períodos de aquecimento da Terra foi entre 1918 e 1940, por acaso anos onde a embrionária indústria existente quase não produzia gases com efeito estufa. É devido a um longo período de arrefecimento (desde a década de 50) que os ursos polares, de 5 mil na década de 60, passaram para 25 mil, na actualidade.
Ou seja, a avaliar por estes prolongados registos climáticos, não se verifica qualquer aquecimento global desde a década de 50 e, por outro, (quando ele existiu) não se deveu à actividade do homem na Terra (efeito estufa antropogénico), mas principalmente devido  ao movimento da terra e à acção do sol.
Por outro lado, não devemos confundir o efeito estufa natural com o efeito de estufa acrescido (pelo designado efeito estufa antropogénico, de responsabilidade do homem). O efeito estufa natural é essencial e permite que a temperatura na superfície terrestre não seja 33 graus abaixo da actual. O efeito estufa antropogénico está por provar.
E quando digo está por provar é porque há manipulações climáticas para todos os gostos e com o objectivo de vender uma nova indústria: a indústria do carbono e das energias alternativas (a verdade inconveniente).
Mas o cientista alemão também revelou que o Goddard Institute of Space Studies (uma divisão da NASA) tem estado (desde 2012) a alterar retroactivamente dados científicos da própria NASA (arquivados em 2010) para fazer parecer que o planeta está a aquecer, especialmente após o ano de 1950.
Ora, a verdade, é que o planeta está a arrefecer desde esse ano. A quem serve, afinal, a manipulação climática?

A “verdade inconveniente” do americano Al Gore tem feito o seu caminho ao serviço de novos interesses económicos e financeiros. Perante essa “verdade inconveniente”, eu, criminoso climático me confesso!

sábado, 19 de dezembro de 2015

Os bailaricos no meu bairro e a Transparência Internacional



No meu bairro costumavam organizar, ainda eu era adolescente, alguns bailaricos para divertir, aos fins de semana, as mulheres e homens lá da terra. Um dia, num bairro próximo, a comissão de moradores ousou organizar um grande espectáculo se comparado com os bailaricos organizados no meu bairro.
Todavia, os organizadores dos bailes do meu bairro esconderam aos seus moradores o grande espectáculo no bairro vizinho e, mais estranho ainda, propagandearam o seu pequeno baile, no mesmo dia do outro evento, como a única e a maior iniciativa cultural organizada no concelho naquele preciso dia.
Vem esta pequena estória a propósito do esforço que alguns “especialistas” em corrupção fazem para construírem uma falsa oposição entre mercado como reino paradisíaco de todas as virtudes e o Estado identificado com a corrupção e o privilégio.
O que o discurso hegemónico sobre a corrupção procura fazer é restringir o fenómeno da corrupção ao sector público, omitindo o elemento privado que compõe a corrupção do sector público e omitindo a grandeza da corrupção no sector privado comparada com a corrupção no sector público. Fazem como os organizadores do baile do meu bairro, ressaltando a importância da sua iniciativa para esconderam o grande espectáculo organizado à mesma hora.
Ao centrar o enfoque da corrupção no sector público por parte de uma parcela selectiva do sector privado, a Transparência Inetrnacional (representada em Portugal pela Associação Transparência e Integridade, versus Paulo Morais) pretende, acima de tudo, omitir a corrupção gerada por aqueles que escondem a evasão e fraude fiscal nos paraísos fiscais.
Por que razão a Transparência Internacional ignora a corrupção produzida via paraísos fiscais, incomparavelmente superior à corrupção gerada no sector público?

Uma boa pergunta para respostas posteriores.

Homem nu, homem posto



Um violento sismo ocorrido às 07h19 da manhã no dia 19 de setembro de 1985 provocou o terror e o pânico na cidade do México. O movimento vibratório brusco da superfície terrestre teve o seu epicentro no mar de Michoacán, litoral do México, alcançando a capital em aproximadamente 50 segundos e chegando a magnitude 8,1 a 8,3 na escala Richter. Deixou um rastro de destruição e morte na Cidade, derrubando vários edifícios na capital mexicana e noutros Estados. Foi tido como um dos piores sismos da história contemporânea e da América. Estima-se que mais de 10 mil pessoas tenham morrido.
Quando as forças de protecção civil procuravam o resgate de corpos por entre os prédios depararam com algo inédito: um homem, há vários dias debaixo dos escombros e com a cabeça a vista, recusou-se a ser resgatado pelo corpo de bombeiros. Quando estes lhe perguntaram por que razão se recusava a ser ajudado o homem não mentiu: “ estou nu e, por isso, prefiro morrer a ser visto neste estado”.
Depois de vários minutos de diálogo, a vítima viria a condescender perante a promessa de ser tapado com uma manta durante o transporte para o hospital.
Durante o percurso até à unidade hospitalar mais próxima, o dilema moral vivido por alguém que prefere morrer a gritar por socorro foi testemunhado num interessante diálogo entre um bombeiro e a vítima: Mas o senhor estava subterrado há quantos dias? Pelo menos três, que me lembre. Não gritou por ninguém? Nunca! Não acha que a sua atitude revela pouco amor-próprio e até falta de respeito por quem está aqui para resgatar sobreviventes? Esse é o seu ponto de vista porque, no meu caso, o amor próprio passa por defender a minha dignidade, os costumes que me foram legados pelos meus pais.
Perante um dilema moral tão subliminar como este, a moral da história só pode ser uma: nem sempre é aconselhável ver de que lado é que está a razão, mas em que é que cada um dos lados tem razão.
Depois de analisados as razões e os factos é preciso ir depois à essência dos mesmos para melhor compreender a complexidade da realidade.