Quando as forças de protecção civil
procuravam o resgate de corpos por entre os prédios depararam com algo inédito:
um homem, há vários dias debaixo dos escombros e com a cabeça a vista,
recusou-se a ser resgatado pelo corpo de bombeiros. Quando estes lhe
perguntaram por que razão se recusava a ser ajudado o homem não mentiu: “ estou
nu e, por isso, prefiro morrer a ser visto neste estado”.
Depois de vários minutos de diálogo, a vítima
viria a condescender perante a promessa de ser tapado com uma manta durante o
transporte para o hospital.
Durante o percurso até à unidade hospitalar
mais próxima, o dilema moral vivido por alguém que prefere morrer a gritar por
socorro foi testemunhado num interessante diálogo entre um bombeiro e a vítima:
Mas o senhor estava subterrado há quantos dias? Pelo menos três, que me lembre.
Não gritou por ninguém? Nunca! Não acha que a sua atitude revela pouco amor-próprio
e até falta de respeito por quem está aqui para resgatar sobreviventes? Esse é
o seu ponto de vista porque, no meu caso, o amor próprio passa por defender a
minha dignidade, os costumes que me foram legados pelos meus pais.
Perante um dilema moral tão subliminar como
este, a moral da história só pode ser uma: nem sempre é aconselhável ver de que lado é que está a razão, mas em que é que cada um dos lados tem razão.
Depois de analisados as razões e os factos é
preciso ir depois à essência dos mesmos para melhor compreender a
complexidade da realidade.

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